As férias chegaram, a mala está aberta no meio do quarto, a agenda da escola finalmente fechou — e, junto com esse respiro, chega também uma pergunta que ouço todos os anos no consultório: “Júlia, como eu faço para meu filho não sair completamente da rotina durante as férias?”
Se você já se pegou pensando nisso, respira: você não está sozinha, e não existe nada de errado com o seu filho, nem com você. Como nutricionista comportamental e integrativa, eu vejo esse período do ano com muito carinho, porque ele revela algo muito bonito sobre como a alimentação infantil nas férias pode ser, ao mesmo tempo, mais livre e mais consciente. Neste artigo, quero te mostrar por que a rotina importa tanto, o que realmente muda no dia a dia dos pequenos nesse período, e como equilibrar afeto e nutrição sem culpa e sem radicalismo.
Por que a rotina dos pequenos importa tanto (mesmo nas férias)
Toda criança precisa de rotina, horário e previsibilidade. Isso não é rigidez, é segurança emocional. Quando uma criança sabe, ainda que de forma intuitiva, o que vem a seguir no seu dia — a hora de comer, de dormir, de brincar — ela consegue regular melhor suas emoções. E uma criança emocionalmente mais equilibrada tem mais facilidade para lidar com frustrações, para se concentrar, para brincar bem com os outros e para, de fato, aproveitar a vida como um todo.
É por isso que, na nutrição comportamental, eu sempre digo que rotina não é sobre controle, é sobre construir um chão firme para a criança pisar. E, durante o ano letivo, esse chão costuma estar bem desenhado: horário de escola, de tarefa, de banho, de jantar, de dormir. Mas aí chegam as férias — e esse chão muda de lugar.
O que realmente muda na alimentação infantil nas férias
Nas férias, praticamente tudo sai do lugar habitual. O horário de dormir e de acordar muda. Os ambientes mudam: a criança vai para a casa dos avós, dos tios, viaja, dorme em lugares diferentes. E, claro, a alimentação muda também.
Alimentos que, durante a semana, não faziam parte da rotina — doces, fast food, refrigerante, industrializados, aquelas comidas mais afetivas — nas férias muitas vezes se tornam diários. E aqui eu preciso ser bem clara com você: isso, por si só, não é um problema. O problema não é a criança comer uma pizza ou um sanduíche de vez em quando. O problema é quando a gente perde completamente a referência do que é comida de verdade, e a criança passa dias inteiros vivendo só de comida afetiva, sem contato nenhum com a nutrição de fato.
Telas, energia e o desequilíbrio silencioso
Existe ainda um segundo movimento que acontece nas férias, e que muitas vezes passa despercebido: o desequilíbrio no gasto de energia. Ao mesmo tempo em que as crianças podem gastar muita energia brincando — mais tempo livre, mais brincadeira ao ar livre, mais movimento — elas também podem passar longos períodos completamente paradas, em frente a telas, à televisão, ao celular.
E ajustar esse gasto energético, equilibrar movimento com momentos de tela, pode ser um grande desafio para os pais — principalmente quando eles continuam trabalhando durante as férias dos filhos. Nesse cenário, outros cuidadores entram em cena: avós, tios, babás, escolinhas de férias. E, com eles, entram também outras culturas alimentares.
Isso acontece porque, normalmente, são os pais — ou os cuidadores principais e a escola — que têm mais responsabilidade sobre a rotina da criança no dia a dia, e que sabem exatamente o que ela deve comer e fazer ao longo do tempo. Quando outros cuidadores assumem esse papel temporariamente, cada um traz consigo seus próprios hábitos, suas próprias regras, seu próprio jeito de lidar com comida — e isso, multiplicado ao longo de semanas de férias, pode tornar tudo ainda mais desafiador para os pais quando a rotina normal volta.
Comida afetiva e comida nutritiva podem (e devem) andar juntas
Aqui está o coração da nutrição comportamental aplicada às férias: a comida afetiva e a comida nutritiva não são inimigas. Elas podem, e devem, coexistir. Meu trabalho — e o convite que eu faço para você — não é eliminar o afeto da comida durante as férias, muito pelo contrário. É garantir que a comida nutritiva continue presente, para que a criança tenha as duas experiências: a de se nutrir de verdade, e a de viver a comida como parte do vínculo, da celebração, da memória.
Quando eu penso em alimentação infantil nas férias sob a ótica da nutrição comportamental, penso exatamente nisso: não é sobre proibir o sorvete da praia ou o lanche da viagem. É sobre garantir que, ao lado desses momentos afetivos, a criança continue tendo acesso a refeições de verdade, que nutrem o corpo dela e sustentam sua energia, seu sono, seu humor e sua capacidade de aproveitar tudo o que as férias têm de bom.
As férias como fábrica de memórias afetivas
Quero te convidar a olhar para esse período de um outro jeito. Momentos de transição, de pausa da rotina — como férias e viagens — são fundamentais para a construção de memórias afetivas na infância. São nesses momentos que se constrói vínculo, afeto, lembrança. E, goste você ou não, a comida está sempre presente nessas memórias: o sorvete com o avô, o pão de queijo da casa da avó, o lanche compartilhado numa viagem de carro.
É exatamente por isso que eu não acredito em radicalismo alimentar nas férias. A ideia não é que a criança “perca peso emocional” abrindo mão dessas experiências. A ideia é que ela continue se nutrindo de verdade, e que, ao mesmo tempo, ganhe também esse afeto pela comida, essas memórias boas que vão acompanhá-la para o resto da vida. Equilíbrio, aqui, não é meio a meio matemático — é presença de ambos os lados, sem culpa.
Erros comuns que eu vejo (e que talvez você já tenha cometido — sem problema nenhum)
Antes de ir para as dicas práticas, quero compartilhar alguns padrões que aparecem com frequência no consultório, porque talvez você se reconheça em algum deles — e é importante dizer, de novo: não tem problema nenhum. Eles fazem parte do processo de qualquer família.
O primeiro é o “modo compensação”: os pais, com culpa por trabalharem durante as férias e não poderem acompanhar tudo de perto, acabam liberando geral na alimentação, como se comida fosse compensar ausência. Entendo profundamente essa culpa, mas ela raramente ajuda — a criança não precisa de mais doce, precisa de presença, mesmo que em pequenas doses ao longo do dia.
O segundo padrão é o oposto: o “modo controle”, em que os pais tentam manter as férias tão rígidas quanto o ano letivo, com medo de que qualquer flexibilização vire caos. Isso também tende a gerar desgaste, porque parte do valor das férias, inclusive para o desenvolvimento emocional da criança, está justamente em experimentar um pouco mais de liberdade.
E o terceiro é o que eu chamo de “efeito colcha de retalhos”: quando vários cuidadores diferentes assumem a criança ao longo das férias, cada um com seu próprio jeito de lidar com comida, e ninguém combina critérios mínimos entre si. O resultado é uma criança que recebe mensagens contraditórias sobre o que pode e não pode, o que também mexe com sua segurança emocional.
A boa notícia é que, para os três padrões, a solução é parecida: alguns poucos combinados simples, sustentados com consistência, sem exigir perfeição de ninguém — nem dos pais, nem dos avós, nem da própria criança.
Guia prático para equilibrar a alimentação infantil nas férias
Feita essa reflexão, vamos ao que interessa: o que você pode fazer, na prática, para atravessar as férias com mais leveza e equilíbrio?
Mantenha as três refeições principais do dia: Tente garantir que a criança faça, pelo menos, café da manhã, almoço e jantar. Assim ela continua em contato com comida de verdade, comida nutritiva, mesmo em meio à bagunça das férias. Não precisa ser perfeito nem elaborado — o importante é que essas três âncoras do dia continuem existindo.
Deixe o jantar mais afetivo, mas com qualidade: O jantar, especificamente, pode ser substituído por um lanche mais afetivo de vez em quando: sair para comer uma pizza, pedir um sanduíche, fazer aquela refeição mais soltinha e divertida. Não tem problema nenhum nisso — desde que, sempre que possível, você busque ingredientes de qualidade, comida de verdade por trás desse lanche. A ideia não é abrir mão do momento afetivo, é garantir que ele também nutra.
Cuide da hidratação da criança: Garantir que a criança se hidrate bem é um ponto que eu considero essencial e que costuma passar batido. Nas férias, as crianças tendem a tomar muito mais refrigerante, suco e bebidas calóricas em geral. E isso é mais problemático do que parece: quando a criança consome uma bebida calórica, ela tende a comer menos ao longo do dia, porque aquelas calorias líquidas já geram uma sensação de saciedade. O resultado é menos comida de verdade e, ao mesmo tempo, menos água — porque o espaço que seria da água acaba sendo ocupado por essas bebidas. Por isso, vale sempre ficar de olho no consumo delas.
Leve a criança para dentro da cozinha: E, por fim, um convite que eu adoro fazer para as famílias: sempre que possível, leve a criança para a cozinha. Só o fato de ela brincar por perto de quem está cozinhando já cria, aos poucos, uma intimidade com aquele espaço. Ela vai percebendo, sem que ninguém precise explicar com palavras, o quanto a cozinha é o coração da casa — o lugar onde as pessoas se reúnem, conversam, compartilham o dia. Sempre que der, deixe-a ajudar de alguma forma: misturar, lavar, arrumar a mesa. Isso vai construindo autonomia e vontade de cozinhar, e fortalecendo a relação dela com o próprio corpo e com a comida — não só nos dias corridos da rotina, mas também nesses momentos de lazer, prazer e liberdade em família.
Para fechar
A relação da criança com a comida, com o corpo e com a cozinha se constrói tanto no dia a dia rotineiro quanto nesses momentos de férias, viagem, tranquilidade e afeto. É por isso que eu insisto: não existe fórmula perfeita nem controle absoluto — existe presença, equilíbrio e, principalmente, muito carinho com o processo.
Se eu pudesse deixar só uma mensagem sobre alimentação infantil nas férias, seria esta: você não precisa escolher entre nutrir e amar. A nutrição comportamental existe exatamente para mostrar que essas duas coisas caminham juntas, todos os dias, inclusive — e talvez principalmente — quando a rotina de casa dá uma pausa. As férias vão passar, os dias vão voltar ao seu ritmo de sempre, mas as memórias construídas em volta da mesa, da cozinha e das refeições compartilhadas vão ficar. E são elas que, no fim das contas, moldam a relação que essa criança vai ter com a própria comida — e com o próprio corpo — na vida adulta.
Se este texto te ajudou a olhar para as férias dos seus filhos com mais leveza, compartilhe com outra mãe ou pai que também esteja vivendo essa fase. E, se quiser aprofundar ainda mais o olhar da nutrição comportamental para a rotina da sua família, estou por aqui — é um prazer caminhar com vocês nessa jornada.
Vamos juntas? 💛
Com carinho,
Júlia Menezes
Nutricionista Comportamental e Integrativa
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